Empresas de ônibus contratam escolta armada para prevenir assaltos na região Norte do Estado

Reprodução/RICTV Record/ND

27 Abril 2016

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Empresas de ônibus contratam escolta armada para prevenir assaltos na região Norte do Estado

A mesma rota da insegurança que traz medo e incertezas aos caminhoneiros também é sinônimo de preocupação para aqueles que viajam de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul ao Estado de São Paulo ou ao Paraguai, com o intuito de comprar mercadorias e revender em suas cidades.

Os chamados sacoleiros têm sido alvo dos criminosos, que aproveitam a vulnerabilidade das estradas para agir. É o que mostra a terceira reportagem do jornal Notícias do Dia, que junto com a RICTV, avalia a segurança nas estradas do Norte do Estado. Há empresas que adotaram escolta armada para proteger os passageiros e motoristas.

Todos os ônibus da Auto Viação Gadotti que saem de Joinville com destino a compras em São Paulo viajam na companhia de equipes da escolta armada


Os trechos mais visados pelas quadrilhas ficam na BR-101, entre Joinville e Garuva, em Santa Catarina, na BR-376 entre Guaratuba e Curitiba, no Paraná, e na rodovia Regis Bittencourt (BR-116), entre Curitiba e Registro, já no Estado de São Paulo, na chamada "Rota da Insegurança". Não há uma estatística oficial de quantos ônibus de turismo foram assaltados nesta rota, mas a Polícia Rodoviária Federal (PRF) estima que houve pelo menos 75 ocorrências só no ano passado.

Diferentemente dos assaltos aos caminhoneiros na região da praça de pedágio de Garuva, como mostrou a reportagem especial do ND na última segunda, o que chama a atenção nestes casos é o armamento e a articulações destas quadrilhas que roubam sacoleiros. “Eles são muito organizados, têm equipamentos de comunicação tecnológicos e armas potentes, como fuzis. Os crimes são bem planejados, eles agem em oito, dez pessoas e muitas vezes são bastante violentos”, afirma o policial rodoviário federal Everson Feuser.

Feuser acrescenta que, por um tempo, estas quadrilhas agiam preferencialmente na região de Garuva e Guaratuba, no pé da serra do mar, mas atualmente o foco tem sido na Região Metropolitana de Curitiba e acessos ao Paraguai e ao Estado de São Paulo. “No ano passado e neste ano, a PRF não teve registros desta natureza na região de Joinville. Mesmo assim, nossas equipes têm trabalhado para coibir a criminalidade”, explica Feuser.



Pavor sob a mira de armas

Quem teve o infortúnio de vivenciar a violência de um assalto a ônibus de turismo de compras diz que o trauma é inesquecível. Há relatos de que, em casos mais extremos, motorista e passageiros foram obrigados a ficar seminus e entregar os pertences aos bandidos. Se não bastasse, o grupo ainda ficou trancado por horas no bagageiro dos ônibus. Em algumas situações, as perdas vão além dos danos materiais.

A joinvilense Liliane Ramos, 42 anos, sabe muito bem disso. Ela fazia uma viagem de compras ao Paraguai quando o grupo de sacoleiros foi atacado, já em Foz do Iguaçu, no Paraná. Os bandidos, armados, atiraram contra a van onde Liliane estava. Ela e o motorista acabaram baleados. Ele morreu na hora, Liliane levou três tiros, dois deles na perna esquerda. A gravidade das lesões fez com que as equipes médicas amputassem a perna esquerda de Liliane.

“Há 14 anos, eu fazia este roteiro semanalmente. Teve períodos em que eu ia três vezes por semana ao Paraguai buscar mercadorias para revender aqui em Joinville. Na estrada, a gente convive e escuta muita coisa a respeito de assalto e acidentes. Perdi alguns amigos assim, mas jamais pensei passar pelo que vivenciei”, diz a mulher, que hoje vive com as filhas e netos no bairro João Costa, em Joinville.

Ela recorda que, no dia 8 de julho de 2009, saiu de Joinville para mais uma expedição de compras. A viagem até a cidade de Foz do Iguaçu, na fronteira com o Paraguai foi tranquila. “Chegamos de manhã, no dia 9, paramos num hotel, tomamos café e embarcamos em uma van que nos levaria ao outro lado da ponte, em Ciudad del Este, no país vizinho. Eu estava no banco da frente, ao lado do motorista. Marcelo da Silva era o nome dele. Lembro de ir conversando com ele, e dele me contar que tinha uma filha de dois anos”, conta Liliane.

No meio do caminho, ainda no Brasil, o motorista viu uma movimentação estranha e alertou os passageiros. “Se preparem fiquem todos calmos que seremos assaltados. Foi uma gritaria e logo os bandidos começaram a atirar. Vi Marcelo morrer, eu fui atingida no abdômen e na perna esquerda. Vários tiros foram disparados contra a van. Outra passageira de Joinville também precisou ser hospitalizada, após ser baleada na nádega. Os criminosos fugiram sem levar nada, Marcelo foi condenado a morte e eu a perder a perna. Já para os bandidos, nada aconteceu”, lamenta.

“Hoje não consigo mais ter a vida que tinha. É muito triste olhar para a minha perna e ver que ela não está mais ali. Mesmo com a prótese, eu não consigo mais caminhar por muito tempo, as dores pelo esforço são intensas. Tem sido dias de superação, mas estou viva, tenho o suporte da minha família, e temos que continuar adiante”, finaliza Liliane Ramos.



Segurança particular

A violência nas estradas tem feito com que a procura pelas viagens de turismo de compras diminuísse. Mas quem ainda precisa pegar as rodovias para buscar o sustento da família tem opções extras de segurança. Isto porque, diante dos constantes assaltos, há empresas de ônibus de turismo que têm investido em segurança privada.

Em Joinville, a Auto Viação Gadotti é uma delas. Atualmente, todos os veículos da empresa que saem de Joinville, com destino a compras em São Paulo, viajam na companhia de equipes da escolta armada. Além disso, os ônibus são equipados com rastreadores. São medidas que ajudam a minimizar as chances de um eventual assalto.

“Temos uma média de custo fixo diário com a escolta armada no valor de R$2.500. Os investimentos em segurança sempre foram uma característica da empresa, é um de nossos diferenciais. As escoltas acompanham todos os grupos na ida, durante as compras e na volta”, comenta a gerente da Gadotti, em Joinville, Laiani Danieli Rosa, 26 anos.

Mesmo com tantos cuidados e investimento, no ano passado a empresa foi vítima de assaltantes. Um comboio de cinco ônibus seguia para São Paulo quando bandidos atravessaram uma carreta na pista e bloquearam a BR-116. Fortemente armados, pelo menos 16 criminosos conseguiram assaltar três dos cinco veículos. Houve troca de tiros e alguns criminosos acabaram baleados e presos.

Em entrevista à RICTV Record, o presidente da presidente da Associação das Empresas de Transporte Turístico e Fretamento de Santa Catarina, Nilton Silva Pacheco, disse que o combate à criminalidade resulta de uma parceria.

“O negócio de transporte de passageiros, em geral, vem enfrentando dificuldades ao longo dos últimos dois anos. O número de passageiros está diminuindo. A gente sabe que esta questão dos assaltos é cíclica. A polícia desbaratou algumas quadrilhas, mas sabemos que, daqui a pouco, elas estão soltas, no mercado de novo, e este ciclo volta. É preciso investimentos nas equipes da segurança pública. Esta força tarefa para coibir a criminalidade tem que ser um trabalho constante e em parceria com a sociedade”, declarou.

Fonte: ND Online Mobile



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